NEUROPSI DAILY | #027

27 de janeiro | Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

DAILY

Dri Cardoso

1/27/20269 min read

27 de janeiro | Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

Violência institucional, desumanização e neurobiologia do trauma coletivo

Curiosidades, pessoas e contextos de referência

O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, estabelecido pela Organização das Nações Unidas - ONU em 2005, marca a libertação do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau em 27 de janeiro de 1945. Esta data não é apenas um luto judaico, mas um marco universal para recordar os milhões de judeus, ciganos, pessoas com deficiência, dissidentes políticos e a comunidade LGBTQIA+ sistematicamente assassinados pelo regime nazista.

O Holocausto não foi apenas um evento de violência extrema, mas um projeto sistemático de desumanização conduzido por instituições estatais, jurídicas, científicas e administrativas. Leis, discursos médicos, burocracias e tecnologias foram mobilizadas para reduzir pessoas a números, categorias biológicas e “vidas descartáveis”. Esse processo revela que a violência mais profunda não é apenas física, mas simbólica: ela começa quando o outro deixa de ser reconhecido como humano.

A importância desta memória reside na análise da violência institucional: o uso do aparelho estatal, da burocracia e da ciência para desumanizar grupos inteiros. O Holocausto demonstrou como o discurso de ódio pode anestesiar a empatia coletiva, transformando o "outro" em um objeto a ser eliminado. Estudar este período é fundamental para entender os mecanismos de resistência psíquica em contextos de opressão absoluta.

Reflexão neurocientífica e biopsicossocial

Do ponto de vista neurocientífico, o Holocausto é o marco zero para o estudo do Trauma Transgeracional. Este conceito foi introduzido clinicamente em 1966 pelo psiquiatra Vivian Rakoff, que, ao tratar jovens em Montreal, percebeu que filhos de sobreviventes apresentavam sintomas graves de trauma e ansiedade, mesmo sem terem vivido os horrores da guerra. Rakoff descreveu como as consequências emocionais de eventos catastróficos podem ser herdadas por gerações subsequentes, inicialmente através de dinâmicas de apego e silêncios nas narrativas familiares.

Contudo, a compreensão dessa herança deu um salto qualitativo com o avanço da Epigenética. O termo, cunhado pelo biólogo Conrad Waddington em 1942, refere-se ao estudo de como o ambiente e as experiências de vida podem "ligar" ou "desligar" genes sem alterar a sequência do DNA em si. Pesquisas contemporâneas cruciais, lideradas pela neurocientista Rachel Yehuda (especialmente em seu estudo de 2015 no Mount Sinai), demonstraram que o estresse extremo vivido pelos sobreviventes deixou marcas biológicas específicas conhecidas como metilação do DNA em genes como o FKBP5, responsável pela regulação do cortisol. Yehuda provou que essas assinaturas químicas, que moldam a resposta biológica ao estresse, foram transmitidas aos descendentes, evidenciando que o trauma histórico não é apenas uma narrativa subjetiva, mas uma assinatura biológica de vulnerabilidade e resiliência gravada no sistema nervoso.

A Desumanização, motor do Holocausto, também possui um correlato neural específico. Estudos de neuroimagem mostram que, quando indivíduos são doutrinados a ver outros como "não-humanos", o Córtex Pré-Frontal Medial (área associada à empatia e cognição social) apresenta uma ativação significativamente menor. O cérebro deixa de processar aquela pessoa como um semelhante, facilitando a execução de atos de violência sem a barreira moral da culpa.

Esse fenômeno biológico dialoga diretamente com o conceito de "Banalidade do Mal", cunhado pela filósofa Hannah Arendt (1906-1975). Ao cobrir o julgamento de Adolf Eichmann em 1961, Arendt observou que a desumanização não exigia ódio fanático, mas sim a renúncia ao pensamento crítico e a aceitação acrítica de normas burocráticas que transformavam o extermínio em uma "tarefa administrativa". Quando a biologia desativa a rede da empatia e o sujeito abre mão do julgamento moral, o mal se torna banal, sistêmico e institucionalizado.

Sob a perspectiva biopsicossocial, a saúde mental pós-Holocausto foi revolucionada por Viktor Frankl (1905-1997), psiquiatra sobrevivente de Auschwitz e fundador da Logoterapia. Frankl observou que aqueles que mantinham um "sentido de vida" apresentavam maior resiliência neuropsicológica e sobrevivência biológica. Para a saúde mental coletiva, a memória do trauma serve como um mecanismo de alerta para o sistema nervoso social: recordar é uma forma de manter ativa a rede de vigilância ética que impede a reiteração da barbárie e protege a dignidade da biologia humana.

Arte, memória e reconstrução coletiva

A arte e os espaços de memória desempenham um papel central na elaboração simbólica do trauma coletivo, especialmente quando se trata de eventos que ultrapassam a capacidade da linguagem comum. Diante da violência extrema e da desumanização sistemática, a arte torna-se um dispositivo de tradução psíquica, permitindo que o horror seja reconhecido sem ser normalizado.

O Memorial e Museu de Auschwitz-Birkenau, localizado na Polônia, constitui um dos mais importantes dispositivos de memória do século XX. A preservação dos barracões, trilhos, objetos pessoais e câmaras de extermínio impede que o trauma seja convertido em abstração histórica. Do ponto de vista neuropsicológico, a experiência do memorial confronta o visitante com a materialidade da violência institucional, ativando circuitos de empatia, luto coletivo e consciência ética. Ao manter visível o espaço da desumanização, o memorial atua como um regulador simbólico da memória coletiva, reduzindo o risco de negação, banalização ou repetição do trauma.

Memorial aos Judeus Mortos da Europa (Berlim, Alemanha), projetado pelo arquiteto Peter Eisenman, o memorial é composto por 2.711 blocos de concreto cinza em diferentes alturas. Ao caminhar entre as estelas, o visitante experimenta uma desorientação espacial e um isolamento sensorial. Do ponto de vista neuropsicológico, a obra induz uma resposta somática de opressão e instabilidade, forçando o corpo a sentir o peso da ausência e do silenciamento sistêmico. É a arquitetura simulando a fragmentação da segurança psíquica.

Outro exemplo fundamental é o Yad Vashem, em Jerusalém, o principal centro mundial de documentação, pesquisa e educação sobre o Holocausto. Diferentemente de uma narrativa centrada apenas na morte, o Yad Vashem restitui nomes, rostos, histórias e vínculos às vítimas, operando uma reconstrução simbólica da dignidade humana. Em termos de saúde mental coletiva, esse gesto é crucial: devolver singularidade às vítimas interrompe o mecanismo central da desumanização, que é a transformação do outro em massa indiferenciada. A memória, nesse contexto, funciona como um antídoto neuropsicológico contra a indiferença moral.

Esses espaços revelam que a arte e a memória não existem para confortar, mas para sustentar responsabilidade ética. Elas não encerram o trauma, mas o mantêm simbolicamente acessível, permitindo que sociedades inteiras aprendam a reconhecer os sinais precoces da violência institucional antes que ela se torne novamente administrável.

Para aprofundar

Livro  

Em Busca de Sentido, Viktor Frankl (1946)

Neste relato autobiográfico e científico, Frankl descreve sua experiência nos campos de concentração sob a ótica da psiquiatria. É a obra fundadora da Logoterapia, que postula que a busca por sentido é a principal força motivadora do ser humano. Sob a lente da neuropsicologia da resiliência, o livro explica como a manutenção de uma meta futura e de um propósito pode mitigar os danos do estresse extremo e sustentar a integridade biológica em condições de privação absoluta.

Livro 

É Isto um Homem?, Primo Levi (1947)

Obra clássica e indispensável sobre a experiência dos campos de concentração, escrita por um sobrevivente de Auschwitz. Levi analisa com precisão ética e psicológica os processos de desumanização, a corrosão da empatia e as estratégias psíquicas de sobrevivência. Para a neurociência contemporânea, o livro oferece um retrato clínico e existencial do trauma extremo, da dissociação e da luta pela preservação da identidade sob condições de aniquilação sistemática.

Livro

O Corpo Guarda as Marcas,  Bessel van der Kolk (2014)

Nesta obra de referência internacional, o psiquiatra e pesquisador Bessel van der Kolk sistematiza décadas de estudos clínicos e neurocientíficos para demonstrar como o trauma reconfigura o cérebro, o corpo e os sistemas de autorregulação. O autor evidencia que experiências traumáticas, especialmente quando associadas à violência institucional e à desumanização, não permanecem apenas como lembranças psicológicas, mas se inscrevem em padrões neurobiológicos duradouros, afetando memória, percepção corporal, resposta ao estresse e vínculos interpessoais. Ao dialogar diretamente com conceitos como trauma coletivo, epigenética do estresse e memória transgeracional, a obra oferece fundamentos científicos sólidos para compreender por que lembrar elaborar simbolicamente e criar condições de reparação é uma estratégia central de cuidado em saúde mental individual e coletiva, e não um mero exercício histórico.

Filmes

A Verdadeira Dor (A Real Pain, 2024)

Direção: Jesse Eisenberg

O filme aborda, de forma sensível e contemporânea, as reverberações do trauma histórico do Holocausto nas gerações seguintes. Ao acompanhar personagens descendentes de sobreviventes em uma viagem pela Europa, a obra explicita como a dor coletiva não desaparece com o tempo, mas se transforma em herança emocional, conflitos identitários, silêncios familiares e tentativas ambíguas de elaboração. Sob a lente da neuropsicologia do trauma, A Verdadeira Dor ilustra com precisão clínica os efeitos da transmissão transgeracional do estresse extremo não apenas como memória narrativa, mas como marca corporal, afetiva e relacional. O filme dialoga diretamente com os achados da epigenética do trauma (Rachel Yehuda) e com a noção de que elaborar a dor herdada exige reconhecimento, nomeação e espaço simbólico para o luto. 

The Pianist (O Pianista, 2002)

Direção: Roman Polanski

O filme retrata o Holocausto a partir da experiência subjetiva da sobrevivência, enfatizando o impacto do terror contínuo, da fome e do isolamento sobre o sistema nervoso. Sob a perspectiva da neuropsicologia do trauma, evidencia estados de hipervigilância, dissociação e colapso da segurança psíquica. A música funciona como âncora identitária e recurso regulador, preservando o self em meio à desumanização. Ao evitar a espetacularização da violência, O Pianista contribui para uma ética da memória que sustenta a dignidade humana e a saúde mental coletiva, lembrando que resistir também é permanecer humano.

Schindler’s List (A Lista de Schindler, 1993)

Direção: Steven Spielberg

Considerado um dos mais importantes registros cinematográficos sobre o Holocausto, Schindler’s List reconstrói a lógica da violência institucional nazista ao mesmo tempo em que expõe, de forma crua, os mecanismos psicológicos da desumanização.

O filme evidencia como a burocracia, a obediência cega às normas e a naturalização da violência permitiram que o extermínio fosse executado como rotina administrativa  elemento central para compreender o trauma coletivo em larga escala. 

Sob a perspectiva da neurociência do trauma, a obra oferece uma representação contundente da exposição prolongada ao estresse extremo, da perda absoluta de previsibilidade e da quebra dos vínculos básicos de segurança. Essas condições mantêm o sistema nervoso em estado permanente de ameaça, com hiperativação da amígdala, colapso das funções executivas e fragmentação da memória  padrões compatíveis com o que hoje se descreve como Transtorno de Estresse Pós-Traumático complexo. 

Ao mesmo tempo, o personagem de Oskar Schindler introduz uma dimensão fundamental para a saúde mental coletiva: a possibilidade de escolha ética mesmo dentro de sistemas totalitários. Do ponto de vista biopsicossocial, o gesto de reconhecer o outro como humano em um contexto que exige sua negação atua como fator de preservação psíquica, tanto para quem protege quanto para quem é protegido. O filme demonstra que a empatia não é apenas um valor moral, mas um mecanismo neurobiológico de resistência à banalização do mal. 

Schindler’s List cumpre, assim, uma função que ultrapassa o cinema: ele opera como dispositivo de memória coletiva, ativando processos de luto, reconhecimento e vigilância ética. Ao tornar visível o horror institucionalizado, o filme contribui para a prevenção da repetição histórica, sustentando a ideia de que lembrar é também uma forma de cuidado em saúde mental coletiva.

Documentário

"Shoah" (1985) 

Direção: Claude Lanzmann

Considerado um dos mais importantes registros audiovisuais sobre o Holocausto, Shoah constrói sua narrativa exclusivamente a partir de testemunhos, recusando imagens de arquivo. Essa escolha estética respeita a natureza traumática da memória, permitindo que a palavra, o silêncio e a emoção emerjam sem espetacularização. O documentário é fundamental para compreender o trauma coletivo, a transmissão intergeracional da memória e a importância do testemunho como forma de reparação simbólica.

Músicas

  1. Schindler's List (Main Theme), John Williams

Interpretada pelo violinista Itzhak Perlman, esta composição é utilizada em estudos de psicologia da música para exemplificar como harmonias menores e timbres específicos podem evocar compaixão e reflexão ética. Ela serve como um suporte auditivo para a regulação do afeto, permitindo que a memória do trauma coletivo seja integrada de forma sensível e não traumática no presente.

Link: https://www.youtube.com/watch?v=057A1RdssoU

  1. Zog Nit Keyn Mol (Nunca diga)Hirsh Glick (1943)

Hino da resistência judaica durante o Holocausto, composto no Gueto de Vilna. A canção afirma a dignidade e a resistência psíquica diante do extermínio iminente. Do ponto de vista neuropsicológico, a música atua como dispositivo de co-regulação emocional e preservação identitária, demonstrando como a arte pode sustentar a vida psíquica mesmo em contextos de desumanização absoluta.

Link: https://www.youtube.com/watch?v=K2lwgbEotn0

NEUROPSI DAILY
Uma prática diária de reflexão neurocientífica e biopsicossocial que compreende a memória histórica como um dispositivo essencial de proteção da saúde mental coletiva. Ao articular neurobiologia do trauma, epigenética, violência institucional e ética dos direitos humanos, o NEUROPSI DAILY afirma que lembrar não é permanecer no passado, mas sustentar mecanismos psíquicos e sociais capazes de impedir a repetição da desumanização. Em contextos de negação, silenciamento e banalização da violência, a memória ativa funciona como uma forma de cuidado: ela preserva a empatia, mantém vivo o julgamento moral e protege o cérebro coletivo contra a normalização do ódio, da exclusão e da indiferença.

Dri Cardoso
Neurocientista e Neuropsicóloga
CEO e Fundadora da NEUROPSI.io
cardoso.adriana@usp.br | dricardoso@neuropsi.io

Referência bibliográfica

CARDOSO, Dri. NEUROPSI DAILY | Janeiro: reflexões biopsicossociais para o dia a dia. São Paulo: NEUROPSI.io. Disponível em: https://www.neuropsi.io. Acesso em: 27 jan. 2026. 


Você encontrará a bibliografia completa no volume de janeiro que será divulgado na biblioteca da NEUROPSI.io a partir de fevereiro de 2026.

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