
NEUROPSI DAILY | #024
24 de janeiro | Dia Internacional da Educação: desigualdade, políticas públicas e saúde mental coletiva
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24 de janeiro | Dia Internacional da Educação: desigualdade, políticas públicas e saúde mental coletiva
Curiosidades, pessoas e contextos de referência
O Dia Internacional da Educação é celebrado em 24 de janeiro, instituído em 2018 pela UNESCO e proclamado pela Organização das Nações Unidas. A criação da data reconhece a educação como direito humano fundamental, bem público e responsabilidade coletiva dos Estados, ultrapassando sua função instrumental de transmissão de conteúdos para afirmá-la como eixo estruturante da dignidade, da democracia e da saúde social.
Historicamente, o acesso à educação sempre operou como um dos principais marcadores de desigualdade. Classe social, raça, território, gênero, deficiência e neurodiversidade atravessam a experiência educacional, definindo quem pode aprender com continuidade, quem aprende sob precariedade e quem é sistematicamente excluído. Nesse sentido, a educação nunca foi neutra: ela pode tanto reproduzir desigualdades quanto funcionar como uma das mais potentes ferramentas de enfrentamento das assimetrias estruturais.
Ao instituir o Dia Internacional da Educação, a ONU reconhece que aprender não é apenas acumular conhecimento, mas acessar condições simbólicas, cognitivas e materiais para existir com mais autonomia. Em sociedades profundamente desiguais, a educação pública de qualidade passa a operar como uma política de proteção psíquica coletiva, capaz de reduzir vulnerabilidades, ampliar horizontes de futuro e oferecer previsibilidade em contextos marcados pela instabilidade social.
Reflexão neurocientífica e biopsicossocial
Do ponto de vista neurocientífico, aprender não é um processo isolado do corpo ou do contexto. O cérebro humano se desenvolve em interação contínua com o ambiente, sendo profundamente sensível às condições de segurança, previsibilidade e estímulo. Ambientes educacionais estáveis, inclusivos e afetivamente seguros favorecem a plasticidade neural, a consolidação da memória, o desenvolvimento das funções executivas e a autorregulação emocional.
A desigualdade educacional, por outro lado, atua como estressor crônico. Crianças e adolescentes expostos a contextos escolares marcados por violência simbólica, racismo, capacitismo, exclusão ou precariedade estrutural apresentam maior ativação do eixo do estresse, com impactos diretos sobre atenção, aprendizagem e saúde mental. Não se trata de falta de capacidade individual, mas de sobrecarga neurobiológica produzida por ambientes adversos.
Nesse sentido, políticas públicas educacionais funcionam como dispositivos indiretos, porém decisivos, de cuidado em saúde. Investir em educação inclusiva, acessível e territorialmente distribuída significa reduzir a carga alostática populacional, ampliar a reserva cognitiva ao longo da vida e diminuir o risco de adoecimento psíquico associado à exclusão social. A escola, quando bem estruturada, torna-se um espaço de co-regulação emocional, pertencimento e construção de sentido.
Sob a perspectiva biopsicossocial, educação é também política de prevenção. Ela não atua apenas sobre o presente, mas organiza expectativas de futuro, elemento central para a saúde mental coletiva. Onde há possibilidade de aprender, há maior percepção de controle, esperança e continuidade simbólica. Onde a educação falha, proliferam sentimentos de impotência, desamparo e ruptura de projetos de vida.
Arte, memória e reconstrução coletiva
A arte e a cultura têm historicamente operado como extensões da educação formal, especialmente em contextos onde o acesso à escola foi negado ou precarizado. Museus, bibliotecas públicas, centros culturais e produções artísticas funcionam como territórios pedagógicos ampliados, nos quais o conhecimento circula de forma sensível, acessível e crítica.
Museu da Educação e do Brinquedo (MEB/USP) - São Paulo (SP): vinculado à Universidade de São Paulo, o Museu da Educação e do Brinquedo é um espaço dedicado à preservação da memória educativa brasileira, com foco especial nas infâncias, nos processos de aprendizagem e nas práticas pedagógicas ao longo do tempo. Suas exposições evidenciam como o acesso à educação sempre esteve atravessado por classe social, território e políticas públicas, revelando tanto avanços quanto exclusões estruturais. Do ponto de vista da saúde mental coletiva, o MEB funciona como um dispositivo de reparação simbólica, ao valorizar experiências educativas historicamente invisibilizadas e reafirmar o brincar, o aprender e o ensinar como dimensões centrais do desenvolvimento humano e da regulação emocional.
Museu da Pessoa - São Paulo (SP): é uma instituição dedicada à preservação de histórias de vida, muitas delas atravessadas por trajetórias educacionais marcadas por desigualdade, interrupções e reinvenções. Ao reunir relatos de estudantes, educadores e comunidades, o museu transforma a educação em narrativa encarnada, mostrando que aprender é um processo situado, afetivo e profundamente ligado às condições sociais. Nesse sentido, o museu opera como um espaço pedagógico ampliado, no qual políticas públicas educacionais podem ser compreendidas não apenas por indicadores, mas por seus efeitos concretos sobre a subjetividade, a autoestima e os projetos de futuro das pessoas.
Em ambos os casos, a arte e a curadoria cultural funcionam como extensões da política educacional. Elas mantêm viva a memória das lutas por acesso ao conhecimento e evidenciam que educação é também cuidado psíquico, transmissão intergeracional e construção de pertencimento. Ao transformar dados em histórias e estatísticas em rostos, esses espaços contribuem para a reconstrução coletiva do sentido de aprender como direito e como fundamento da saúde mental em sociedades desiguais.
Para aprofundar
Livro
Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire (1968)
Obra fundamental para compreender a educação como prática de liberdade e enfrentamento das desigualdades estruturais. Freire propõe uma pedagogia que reconhece o sujeito como agente ativo do conhecimento, articulando aprendizagem, consciência crítica e transformação social.
Documentário
Nunca Me Sonharam (2017)
Direção: Cacau Rhoden
O documentário aborda os desafios da educação pública brasileira a partir da perspectiva de estudantes, professores e gestores, evidenciando como políticas educacionais impactam diretamente projetos de vida, saúde mental e pertencimento social.
Música
O Que É, O Que É?, Gonzaguinha (1982)
A canção articula educação, dignidade e esperança como processos coletivos, reforçando a ideia de que aprender e viver com sentido são construções compartilhadas, e não conquistas individuais isoladas.
Link: https://www.youtube.com/watch?v=IYZcsb706q8
NEUROPSI DAILY
Uma prática diária de reflexão neurocientífica e biopsicossocial que compreende a educação como um dos principais dispositivos de cuidado em saúde mental coletiva. Ao articular neurociência do desenvolvimento, desigualdade social e políticas públicas, o NEUROPSI DAILY afirma que aprender não é apenas adquirir conhecimento, mas acessar condições concretas de dignidade, pertencimento e futuro possível. Em sociedades marcadas por exclusão estrutural, sustentar uma educação pública, inclusiva e de qualidade é também sustentar o equilíbrio psíquico individual e coletivo.
Dri Cardoso
Neurocientista e Neuropsicóloga
CEO e Fundadora da NEUROPSI.io
cardoso.adriana@usp.br | dricardoso@neuropsi.io
Referência bibliográfica
CARDOSO, Dri. NEUROPSI DAILY | Janeiro: reflexões biopsicossociais para o dia a dia. São Paulo: NEUROPSI.io. Disponível em: https://www.neuropsi.io. Acesso em: 23 jan. 2026.
Você encontrará a bibliografia completa no volume de janeiro que será divulgado na biblioteca da NEUROPSI.io a partir de fevereiro de 2026.


