
NEUROPSI DAILY | #020
20 de janeiro | Dia Nacional da Pessoa Farmacêutica: medicalização e psicofármacos em saúde mental
DAILY
20 de janeiro | Dia Nacional da Pessoa Farmacêutica: medicalização e psicofármacos em saúde mental
Curiosidades, pessoas e contextos de referência
O Dia Nacional da Pessoa Farmacêutica, celebrado no Brasil em 20 de janeiro, marca a consolidação de uma profissão central na interface entre ciência, cuidado e ética. Historicamente associada à produção, dispensação e controle de medicamentos, a atuação farmacêutica expandiu-se para campos como vigilância sanitária, pesquisa clínica, atenção básica e saúde mental, ocupando posição estratégica na relação entre sofrimento humano, tecnologia terapêutica e políticas públicas.
No campo da saúde mental, os psicofármacos tornaram-se, ao longo do século XX, ferramentas amplamente utilizadas no manejo do sofrimento psíquico. Essa expansão ocorreu em paralelo a processos sociais mais amplos de urbanização, aceleração do trabalho, medicalização da vida cotidiana e redução de espaços coletivos de cuidado. Reconhecer o Dia Nacional da Pessoa Farmacêutica implica, portanto, reconhecer também a complexidade ética envolvida no uso de medicamentos que atuam diretamente sobre o cérebro, as emoções e a subjetividade.
Mais do que uma data comemorativa, o 20 de janeiro convida à reflexão crítica sobre como a sociedade lida com o sofrimento psíquico. Entre o alívio legítimo da dor e a transformação de experiências humanas em diagnósticos e prescrições automáticas, a prática farmacêutica ocupa um lugar-chave na mediação entre ciência, cuidado e responsabilidade social.
Reflexão neurocientífica e biopsicossocial
Do ponto de vista neurocientífico, os psicofármacos atuam modulando sistemas neuroquímicos envolvidos na regulação do humor, da ansiedade, do sono e da cognição. Antidepressivos, ansiolíticos, estabilizadores de humor e antipsicóticos interferem em circuitos dopaminérgicos, serotoninérgicos, noradrenérgicos e gabaérgicos, podendo reduzir sintomas intensos e, em muitos casos, restaurar condições mínimas de funcionamento psíquico. Negar essa eficácia seria negar evidências científicas consolidadas.
Entretanto, a crítica contemporânea à medicalização excessiva não se dirige ao medicamento em si, mas ao seu uso descontextualizado. Quando o psicofármaco é empregado como resposta rápida a sofrimentos produzidos por desigualdade social, precarização do trabalho, violência estrutural ou ausência de vínculos, corre-se o risco de silenciar sintomas que são, na verdade, sinais de adoecimento social. Nesse cenário, o cérebro é tratado isoladamente, enquanto o contexto permanece inalterado.
Do ponto de vista biopsicossocial, o sofrimento psíquico emerge da interação entre vulnerabilidades neurobiológicas, histórias de vida e condições ambientais. A atuação ética da pessoa farmacêutica, especialmente em saúde mental, exige a compreensão de que o medicamento deve integrar um projeto terapêutico mais amplo, que envolva acompanhamento clínico, escuta qualificada, intervenções psicossociais e políticas de cuidado contínuo. A prescrição e a dispensação responsáveis não apenas regulam sintomas, mas protegem a autonomia da pessoa e reduzem o risco de cronificação medicamentosa.
Arte, memória e reconstrução coletiva
A arte tem sido um dos campos mais críticos e sensíveis para denunciar a transformação do sofrimento humano em mercadoria química e a consequente medicalização da vida. Através de instalações e performances, artistas provocam uma reflexão sobre o limite entre a pílula que liberta e a pílula que silencia.
A Instalação "Pharmacy" de Damien Hirst (1992): criada no auge da chamada "Década do Cérebro", o artista britânico produziu uma das obras mais icônicas sobre o tema, reproduzindo uma farmácia em tamanho real com prateleiras repletas de caixas de medicamentos reais. Organizada metodicamente (com remédios para a cabeça nas prateleiras superiores e para os pés nas inferiores), Hirst questiona a nossa "fé cega" na indústria farmacêutica e como o remédio se tornou um objeto de consumo quase religioso. Sob a lente da saúde mental, a obra de 1992 nos faz confrontar a ideia de uma "felicidade plastificada" e a tentativa da sociedade contemporânea de organizar o caos emocional através de cores e nomes genéricos em prateleiras estéreis.
O Museu da Farmácia (Lisboa e Porto): este acervo percorre a história da humanidade desde as civilizações antigas, mostrando como o "pharmakon" sempre foi ambíguo: remédio e veneno. A memória preservada neste espaço ajuda a entender que a busca por substâncias que alterem a consciência ou aliviem a dor não é nova, mas que a responsabilidade ética da pessoa farmacêutica é o que impede que a busca pela cura se torne uma forma de controle social.
Essas expressões e acervos revelam que a farmacologia, quando dissociada da narrativa de vida, corre o risco de se tornar uma técnica de silenciamento em vez de uma ferramenta de cuidado. A arte nos lembra que o medicamento não deve ser o destino final do sofrimento, mas um suporte para que o sujeito recupere sua capacidade de simbolizar e agir sobre o mundo. Nesse cenário, o papel da pessoa farmacêutica transcende a logística técnica: ela atua como uma guardiã ética da subjetividade, garantindo que a intervenção química seja um meio para a autonomia e jamais uma barreira para a reconstrução da esperança e da dignidade coletiva.
Para aprofundar
Livro
A Invenção das Doenças Mentais, Ian Hacking (2010)
O filósofo e historiador da ciência Ian Hacking canadense investiga como categorias de sofrimento psíquico são "criadas" e como os diagnósticos interagem com a disponibilidade de tratamentos químicos. É uma leitura essencial para compreender o fenômeno da medicalização sob uma ótica crítica, discutindo como a rotulagem de comportamentos pode influenciar a identidade e a saúde mental coletiva. O livro ajuda a pessoa farmacêutica a refletir sobre o "looping humano": como as pessoas mudam sua própria percepção de si a partir do momento em que recebem um diagnóstico e uma medicação.
Filme
Terapia de Risco, Side Effects (2013)
Direção: Steven Soderbergh
Um suspense psicológico que coloca em xeque a ética da indústria farmacêutica e os efeitos imprevistos de novos psicofármacos. O filme retrata a vida de uma mulher que, ao começar um tratamento com um antidepressivo experimental, vê sua vida sair do controle. É um excelente recurso para discutir a importância da farmacovigilância e o papel crítico do farmacêutico no monitoramento de reações adversas e na proteção da integridade psíquica do paciente frente às promessas de curas milagrosas.
Música
Mother’s Little Helper, The Rolling Stones (1966)
Esta é uma das primeiras canções da cultura pop a tratar abertamente da medicalização da vida cotidiana. Ela fala sobre as "pequenas pílulas amarelas" que ajudavam as donas de casa a suportar o estresse doméstico na década de 60. É perfeita para discutir como a farmacologia pode ser usada para mascarar sobrecargas sociais e de gênero.
Link: https://www.youtube.com/watch?v=OusADDs_3ps
NEUROPSI DAILY
Uma prática diária de reflexão neurocientífica e biopsicossocial que compreende os psicofármacos como ferramentas legítimas, porém não suficientes, no cuidado em saúde mental. Ao articular neurociência, ética, cultura e crítica social, o NEUROPSI DAILY afirma que tratar o sofrimento psíquico exige mais do que regular neurotransmissores: exige reconhecer contextos, vínculos e histórias. Em um cenário de medicalização crescente, sustentar uma prática farmacêutica ética é também sustentar a dignidade, a autonomia e a saúde mental coletiva.
Dri Cardoso
Neurocientista e Neuropsicóloga
CEO e Fundadora da NEUROPSI.io
cardoso.adriana@usp.br | dricardoso@neuropsi.io
Referência bibliográfica
CARDOSO, Dri. NEUROPSI DAILY | Janeiro: reflexões biopsicossociais para o dia a dia. São Paulo: NEUROPSI.io. Disponível em: https://www.neuropsi.io. Acesso em: 20 jan. 2026.
Você encontrará a bibliografia completa no volume de janeiro que será divulgado na biblioteca da NEUROPSI.io a partir de fevereiro de 2026.


