NEUROPSI DAILY | #019

19 de janeiro | Dia Nacional da Pessoa Cabeleireira: identidade e saúde mental

DAILY

Dri Cardoso

1/19/20266 min read

19 de janeiro | Dia Nacional da Pessoa Cabeleireira: identidade e saúde mental

Curiosidades, pessoas e contextos de referência

O 19 de janeiro é tradicionalmente conhecido no Brasil como o Dia do Cabeleireiro. Neste texto, adotamos a expressão Dia Nacional da Pessoa Cabeleireira, como forma de reconhecer a profissão a partir de uma linguagem centrada na pessoa, que contempla mulheres, homens e pessoas de identidades diversas, valorizando o cuidado capilar como prática humana, relacional e social.

O trabalho da pessoa cabeleireira ultrapassa a dimensão estética. Trata-se de uma atividade historicamente vinculada à construção da imagem, da identidade e da autoestima, exercida no cotidiano por meio da escuta, do toque, da presença e da confiança. Em diferentes culturas e períodos históricos, o cuidado com os cabelos esteve associado a rituais de passagem, pertencimento coletivo, espiritualidade, resistência política e afirmação subjetiva.

No contexto brasileiro, salões de beleza e espaços de cuidado capilar consolidaram-se como territórios sociais de encontro, conversa e acolhimento. Muitas vezes, esses espaços funcionam como redes informais de apoio emocional, especialmente em contextos marcados por desigualdade social, racismo, envelhecimento, adoecimento ou exclusão. Reconhecer o Dia Nacional da Pessoa Cabeleireira é também reconhecer o valor simbólico e psíquico de um cuidado que acontece nos detalhes do cotidiano e sustenta vínculos invisibilizados.

Reflexão neurocientífica e biopsicossocial

Do ponto de vista da neuroestética, o cuidado capilar não é uma experiência superficial, mas um processo complexo de processamento sensorial e emocional. A percepção da própria imagem ativa o sistema de recompensa e áreas do córtex pré-frontal, onde o cérebro avalia a harmonia e a simetria, interpretando o resultado estético como um reforço positivo para o self. Quando a pessoa cabeleireira atua, ela estimula mecanorreceptores na derme do couro cabeludo que enviam sinais ao cérebro para a liberação de ocitocina e serotonina, promovendo uma regulação parassimpática imediata. Esse "toque social" é capaz de reduzir os níveis de cortisol, modulando a resposta ao estresse e criando um estado de segurança neurobiológica.

A imagem corporal, processada no córtex somatossensorial e no giro fusiforme, é a base da nossa identidade. Mudanças na aparência, quando realizadas em um ambiente de validação, promovem uma atualização positiva do esquema corporal. Em termos biopsicossociais, a pessoa cabeleireira atua como uma "coautora" da identidade do sujeito, facilitando a transição de estados de invisibilidade para o reconhecimento. Sentir-se esteticamente coerente com sua identidade interna diminui a hipervigilância social e a carga alostática, permitindo que a autoestima funcione como um fator protetivo contra o sofrimento psíquico.

É igualmente fundamental reconhecer o trabalho emocional envolvido nesta profissão. A pessoa cabeleireira exerce uma escuta ativa que exige alta carga cognitiva e empatia constante. Essa dedicação, somada à pressão por resultados estéticos, pode levar ao desgaste. Portanto, a saúde mental neste contexto deve ser uma via de mão dupla: o reconhecimento do poder terapêutico do salão para o cliente e a necessidade de suporte psicológico e condições dignas para quem cuida, garantindo que a neuroestética seja uma ferramenta de bem-estar para ambos.

Pensar saúde mental no Dia Nacional da Pessoa Cabeleireira implica também refletir sobre condições de trabalho, reconhecimento profissional e cuidado de quem cuida.

Arte, memória e reconstrução coletiva

A arte tem sido o palco onde a neuroestética se manifesta através da simbologia do cabelo como território de identidade e extensão do self. Longe de ser um detalhe ornamental, o cabelo nas artes visuais funciona como um manifesto que permite ao cérebro coletivo processar temas de liberdade, pertencimento e resistência.

A Obra de Rosana Paulino: nascida em São Paulo em 1967 e doutora em Artes Visuais pela USP, Paulino é uma das artistas contemporâneas mais importantes do Brasil. Sua obra utiliza a representação do cabelo para discutir a reconstrução da memória e da ancestralidade afro-latina. Como artista de renome internacional, suas obras estão presentes nos principais acervos do mundo; no Brasil, é possível encontrar instalações e obras permanentes na Pinacoteca do Estado de São Paulo, no MAM (Museu de Arte Moderna) e no MASP, além de exposições frequentes em centros como o Sesc. Para o espectador, o contato com sua arte ativa circuitos de identificação e empatia, promovendo uma reparação simbólica e dialogando com o salão de beleza como um espaço de re-existência, onde a estética é o caminho para restaurar uma dignidade fragmentada.

A Neuroestética nas Instalações de Shelagh Wakely (1932-2011): artista britânica explorava a relação intrínseca entre o corpo e os materiais orgânicos. Suas instalações efêmeras muitas vezes compostas por pós de frutas, especiarias e fios metálicos foram exibidas em instituições de prestígio como a British School at Rome e o ICA (Institute of Contemporary Arts) em Londres, além de diversos espaços públicos na Europa. Atualmente, seu espólio é gerido pela Richard Saltoun Gallery, com obras permanentes integrando as coleções da Tate Modern e do British Council. As obras de Wakely evocam a delicadeza e a complexidade do toque, da forma e da impermanência. Ao transpor essa sensibilidade para os espaços de cuidado capilar, percebemos o salão como uma "galeria viva", onde a pessoa cabeleireira atua como uma artista conceitual que utiliza o toque e a forma para esculpir identidades e promover o bem-estar neuroestético.

Essas expressões artísticas revelam que o cuidado capilar é uma forma de escultura subjetiva. A arte ajuda a deslocar o olhar da beleza como norma para a beleza como saúde e verdade identitária. Quando a estética é aliada à saúde mental, o espelho deixa de ser um lugar de julgamento e passa a ser um dispositivo de reconhecimento neural, onde a pessoa finalmente se reconhece na imagem que vê.

Para aprofundar

Livro  

Neuroestética, Semir Zeki (2012)

Semir Zeki, professor de Neurobiologia na University College London, é um dos pioneiros mundialmente reconhecidos nesta área, sendo considerado o "pai da Neuroestética". Neste livro e em seus artigos, ele explora como o cérebro processa a beleza e a estética de forma biológica, utilizando mapeamentos cerebrais para provar que a apreciação da forma e da harmonia não é apenas uma escolha cultural, mas uma função cerebral intrínseca. Zeki demonstra que a beleza ativa o córtex orbitofrontal medial os mesmos centros de prazer vinculados às necessidades básicas humanas. A leitura é fundamental para compreender como o trabalho da pessoa cabeleireira, ao buscar harmonia visual e equilíbrio de formas, atua diretamente na ativação de circuitos de recompensa do cliente, promovendo saúde mental através da satisfação estética biológica.

Filme

Vênus (2006)

Direção: Roger Michell.

Uma reflexão sensível sobre a percepção da beleza e o envelhecimento, mostrando como o reconhecimento da própria imagem é vital para a preservação do self em qualquer fase da vida. O filme ilustra como o olhar estético sobre o outro e sobre si mesmo pode ser uma forma de manter a dignidade e a vitalidade psíquica diante da vulnerabilidade.

Música

Cabelo, Gal Costa (1995)

Composta por Jorge Ben e Arnaldo Antunes, esta canção é um hino à diversidade e à força identitária contida nos fios. Ela celebra o cabelo como uma extensão viva da pessoa e um território de afirmação. Sob a ótica neuropsicológica, a música reforça a ideia do cabelo como um marcador de liberdade e pertencimento, essencial para o fortalecimento da autoestima e da imagem corporal.

Link: https://www.youtube.com/watch?v=Tp4EiHVNc1A

NEUROPSI DAILY
Uma prática diária de reflexão neurocientífica e biopsicossocial que compreende o cuidado com a imagem e a identidade como pilares da saúde mental integral. Ao articular neuroestética, vínculos de confiança e memória cultural, o NEUROPSI DAILY reafirma que o trabalho da pessoa cabeleireira é uma forma essencial de suporte emocional e social. Reconhecer o valor do toque, da escuta e da validação identitária nos espaços de cuidado é uma estratégia fundamental para o fortalecimento da autoestima, a regulação do sistema nervoso e a construção de uma resiliência coletiva baseada na dignidade de ser quem se é.

Dri Cardoso
Neurocientista e Neuropsicóloga
CEO e Fundadora da NEUROPSI.io
cardoso.adriana@usp.br | dricardoso@neuropsi.io

Referência bibliográfica

CARDOSO, Dri. NEUROPSI DAILY | Janeiro: reflexões biopsicossociais para o dia a dia. São Paulo: NEUROPSI.io. Disponível em: https://www.neuropsi.io. Acesso em: 19 jan. 2026. 


Você encontrará a bibliografia completa no volume de janeiro que será divulgado na biblioteca da NEUROPSI.io a partir de fevereiro de 2026.

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