
NEUROPSI DAILY | #018
18 de janeiro | Dia Internacional do riso: a neurobiologia da alegria
DAILY
18 de janeiro | Dia Internacional do riso: a neurobiologia da alegria
Curiosidades, pessoas e contextos de referência
O Dia Internacional do Riso, celebrado em 18 de janeiro, é uma data simbólica dedicada a reconhecer o riso como uma expressão humana universal, presente em todas as culturas e períodos históricos. Muito antes de ser compreendido cientificamente, o riso já era reconhecido como forma de vínculo social, alívio emocional e resistência subjetiva frente às adversidades do cotidiano.
No campo do pensamento filosófico e social, o riso esteve associado tanto à celebração quanto à crítica social. Na filosofia antiga, Aristóteles já compreendia o riso como uma característica distintiva da humanidade, enquanto, na modernidade, autores como Henri Bergson, filósofo francês do início do século XX, cuja obra O riso (1900) tornou-se uma referência central para a compreensão do humor como fenômeno social. Para Bergson, o riso não é apenas uma reação individual espontânea, mas um acontecimento relacional, que surge do contraste entre a rigidez das normas e a vitalidade da vida. O riso, nesse sentido, funciona como um mecanismo coletivo de correção, flexibilização e restauração do movimento social.
Ao longo da história, o riso também ocupou um lugar ambíguo entre celebração e crítica. Ele pode aliviar tensões, fortalecer laços e produzir prazer, mas também denunciar excessos de poder, autoritarismo e desumanização. Em contextos de sofrimento social, o riso frequentemente emerge como forma de resistência simbólica e preservação da dignidade subjetiva. Reconhecer o riso como fenômeno histórico, cultural e relacional permite compreendê-lo não como superficialidade, mas como uma dimensão fundamental da experiência humana e da saúde mental coletiva.
Reflexão neurocientífica e biopsicossocial
Do ponto de vista neurocientífico, o riso envolve a ativação integrada de circuitos emocionais, cognitivos e sociais. Ele mobiliza sistemas de recompensa mediados por dopamina, estimula a liberação de endorfinas associadas ao prazer e à analgesia, e favorece a liberação de oxitocina, neurotransmissor central nos processos de vínculo, confiança e segurança interpessoal. Esses mecanismos contribuem para a redução da ativação de circuitos associados à ameaça e ao estresse, promovendo relaxamento fisiológico e sensação de bem-estar.
O bom humor deve ser entendido como uma estratégia de enfrentamento (coping) ativa e consciente. Ao buscar situações que provoquem o riso, a pessoa promove uma autorregulação neuroquímica que protege o cérebro contra os danos do estresse oxidativo. Essa "higiene dopaminérgica" favorece a plasticidade cerebral, pois um cérebro que ri é um cérebro mais criativo e capaz de encontrar soluções para problemas que, sob o efeito do medo, pareceriam insolúveis.
E em relação ao riso compartilhado exerce um papel particularmente relevante na saúde mental coletiva. Estudos em neurociência social indicam que rir junto sincroniza estados emocionais, fortalece a sensação de pertencimento e reduz a percepção de isolamento. Em termos neurobiológicos, essa sincronização atua como um amortecedor da resposta ao estresse, diminuindo a atividade do eixo hipotálamo–hipófise–adrenal e contribuindo para a redução da carga alostática. Assim, o riso não opera como negação da dor ou fuga da realidade, mas como estratégia adaptativa de autorregulação e coesão social.
A compreensão do riso como fenômeno relacional e coletivo encontra correspondência direta na neurobiologia contemporânea. O que Henri Bergson descreveu como flexibilização da rigidez social pode ser observado, no plano cerebral, como um processo de regulação emocional mediado por circuitos de recompensa, afiliação e segurança. O riso ativa redes que envolvem sistema dopaminérgico, liberação de endorfinas e modulação do tônus autonômico, promovendo redução da resposta ao estresse e aumento da sensação de conexão interpessoal. Quando compartilhado, o riso sincroniza estados emocionais entre pessoas, fortalecendo vínculos e diminuindo a percepção de ameaça. Assim, aquilo que a filosofia identificou como função social do riso revela-se, à luz da neurociência, um mecanismo biológico de cuidado coletivo, capaz de amortecer a hipervigilância, reduzir a carga fisiológica do estresse e sustentar a saúde mental em contextos de adversidade.
Arte, memória e reconstrução coletiva
Ao longo da história, o riso ocupou um lugar central nas artes como linguagem estética, política e afetiva. Longe de representar apenas leveza ou entretenimento, o humor, a comédia e a sátira funcionam como dispositivos simbólicos de elaboração do sofrimento, crítica social e reconstrução de sentidos compartilhados. A arte do riso permite nomear tensões, expor contradições e restaurar a humanidade em contextos marcados por rigidez, exclusão e violência simbólica.
O Museu do Humor localizado em Fortaleza - Ceará, é um dos principais guardiões da memória da comédia nacional. Ele não apenas expõe objetos e histórias de humoristas, mas funciona como um centro de preservação da "cearensidade" e da capacidade do brasileiro de rir de si mesmo. O espaço valida o humor como patrimônio cultural e ferramenta de resistência psíquica contra as adversidades da vida.
As intervenções de Doutores da Alegria em ambientes hospitalares, funcionam como dispositivos de saúde mental que utilizam o riso para humanizar instituições e restaurar a dignidade e a esperança de pacientes e profissionais.
Juntos, esses exemplos revelam que o riso, quando inscrito na arte, na memória cultural e nas práticas institucionais, ultrapassa o campo do entretenimento e se afirma como tecnologia simbólica de cuidado. Seja na preservação da comédia como patrimônio cultural, seja na intervenção direta em contextos de sofrimento, o riso atua como força de recomposição subjetiva e coletiva. Ele humaniza espaços, flexibiliza relações endurecidas e restitui sentido onde a dor tende a silenciar. Nesse contexto, arte e memória não apenas registram o riso, mas o sustentam como prática legítima de saúde mental, pertencimento e reconstrução da esperança no cotidiano social.
Para aprofundar
Livro
O cérebro divertido, Scott Weems (2016)
Nesta obra, o neurocientista Scott Weems utiliza pesquisas de ponta para explicar o que acontece no cérebro quando rimos. O livro detalha como o humor é, na verdade, uma forma de processamento de conflitos internos e como o riso funciona como um mecanismo de "reset" para o sistema nervoso. É uma leitura essencial para entender por que o bom humor é um indicador de saúde mental e inteligência, ajudando a fortalecer a resiliência e a flexibilidade cognitiva.
Filme
Tempos Modernos, Charlie Chaplin (1936)
Direção: Charlie Chaplin
Nesta obra seminal, Chaplin utiliza o humor físico e a comédia visual para expor os efeitos psíquicos da mecanização, da alienação e da exploração do trabalho industrial. O riso, aqui, não funciona como anestesia da dor social, mas como linguagem crítica que revela o impacto do ritmo produtivista sobre o corpo, a subjetividade e os vínculos humanos. Tempos Modernos mostra como a comédia pode operar como forma de consciência coletiva e resistência afetiva frente ao sofrimento estrutural.
Música
Smile, Charlie Chaplin (1936)
Originalmente o tema instrumental de "Tempos Modernos", esta canção tornou-se o hino mundial da resiliência. Ela nos convida a usar o sorriso como uma ponte para atravessar o medo e a tristeza, ativando circuitos de esperança e regulação emocional.
Link: https://www.youtube.com/watch?v=XjwqDFeCMnM
NEUROPSI DAILY
Uma prática diária de reflexão neurocientífica e biopsicossocial que compreende o riso e a alegria como processos ativos de regulação emocional, vínculo social e proteção da saúde mental coletiva. Ao articular neurociência afetiva, cultura, memória e experiência humana, o NEUROPSI DAILY afirma que a alegria não é um estado superficial ou escapista, mas uma condição biológica e relacional que sustenta o corpo, o cérebro e os vínculos em contextos de estresse, sofrimento e desigualdade. Em tempos marcados por hipervigilância, sobrecarga emocional e fragmentação social, cultivar o riso compartilhado é também uma forma legítima de cuidado psíquico individual e coletivo.
Dri Cardoso
Neurocientista e Neuropsicóloga
CEO e Fundadora da NEUROPSI.io
cardoso.adriana@usp.br | dricardoso@neuropsi.io
Referência bibliográfica
CARDOSO, Dri. NEUROPSI DAILY | Janeiro: reflexões biopsicossociais para o dia a dia. São Paulo: NEUROPSI.io. Disponível em: https://www.neuropsi.io. Acesso em: 18 jan. 2026.
Você encontrará a bibliografia completa no volume de janeiro que será divulgado na biblioteca da NEUROPSI.io a partir de fevereiro de 2026.


