NEUROPSI DAILY | #016

16 de janeiro | Dian Fossey: a linguagem da empatia além das palavras

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Dri Cardoso

1/16/20264 min read

16 de janeiro | Dian Fossey: a linguagem da empatia além das palavras

Curiosidades, pessoas e contextos de referência

Em 16 de janeiro de 1932 nasceu Dian Fossey, na cidade de San Francisco, Califórnia, Estados Unidos, uma das cientistas mais marcantes do século XX no campo da primatologia e da conservação ambiental. Formada inicialmente em Terapia Ocupacional, Fossey migrou para a zoologia movida por um interesse profundo no comportamento animal e, sobretudo, na relação ética entre seres humanos e outras espécies.

Diferentemente de abordagens laboratoriais, Fossey optou por uma imersão radical no campo, vivendo por longos períodos nas montanhas Virunga, entre Ruanda e Congo, onde fundou, em 1967, o Karisoke Research Center. 

Ao longo de quase duas décadas, desenvolveu métodos de observação baseados na aproximação gradual, no respeito ao ritmo dos animais e no reconhecimento de vínculos sociais complexos entre os gorilas-da-montanha. Paralelamente, tornou-se uma voz incômoda ao denunciar a caça ilegal, o turismo predatório e as heranças coloniais que exploravam territórios africanos sob a justificativa do desenvolvimento. 

A pesquisa desenvolvida por Dian Fossey foi decisiva para transformar a primatologia e a conservação ambiental ao demonstrar, com base em observação longitudinal de campo, que os gorilas-da-montanha possuem estruturas sociais complexas, vínculos afetivos estáveis, repertórios comunicacionais sofisticados e capacidades emocionais comparáveis às observadas em outras espécies de grandes primatas. Ao rejeitar abordagens invasivas e adotar a convivência prolongada como método científico, Fossey contribuiu para redefinir os limites éticos da pesquisa com animais, influenciando protocolos contemporâneos de etologia, conservação e bem-estar animal. Seus dados sustentaram políticas de preservação que evitaram a extinção funcional dos gorilas-da-montanha e, simultaneamente, ampliaram a compreensão científica sobre empatia, cuidado e interdependência entre espécies, estabelecendo pontes fundamentais entre biologia, psicologia, ética e saúde planetária.

Reflexão neurocientífica e biopsicossocial

Do ponto de vista neurocientífico, no trabalho de Fossey, a convivência cotidiana com os gorilas-da-montanha favoreceu a ativação contínua desses sistemas de espelhamento, ampliando processos de ressonância afetiva, reconhecimento do outro como sujeito e atribuição de valor moral a vidas não humanas. Essa ativação sustentada ajuda a compreender como vínculos interespécies podem ser construídos de forma profunda e estável, mas também como eles intensificam o impacto emocional da perda, da violência e da ameaça. Do ponto de vista neurobiopsicossocial, a empatia mediada por neurônios-espelho não é neutra: ela aumenta a sensibilidade ao sofrimento alheio e, quando não acompanhada por mecanismos coletivos de proteção, pode levar à sobrecarga empática, à hipervigilância e ao esgotamento psíquico.

Nesse sentido, a trajetória de Fossey evidencia os limites do cuidado solitário em contextos de violência estrutural. A defesa radical da vida, humana ou não humana quando sustentada apenas por recursos individuais, expõe o cérebro e o corpo a estados prolongados de estresse, desregulação emocional e isolamento social. Sua história nos convoca, portanto, a deslocar a empatia do plano exclusivamente individual para uma ética estrutural do cuidado, na qual saúde mental, conservação ambiental e justiça social dependem de redes institucionais, políticas públicas e responsabilidade coletiva, capazes de sustentar, e não adoecer, quem cuida.

Arte, memória e reconstrução coletiva

A trajetória de Dian Fossey foi amplamente traduzida em produções culturais e espaços de memória que articulam ciência, ética e conservação ambiental, transformando sua pesquisa em patrimônio simbólico coletivo.

Instituições como o American Museum of Natural History e o Natural History Museum incorporam exposições permanentes e temporárias sobre primatologia, biodiversidade e evolução, contextualizando a pesquisa de campo de Fossey dentro de uma história maior da relação entre humanos e outras espécies. Já o Dian Fossey Gorilla Fund, com sede em Ruanda e nos Estados Unidos, atua como espaço vivo de memória científica, educação ambiental e continuidade do trabalho iniciado por ela, articulando pesquisa, formação local e proteção territorial.

Essas obras e instituições cumprem um papel central na reconstrução coletiva do vínculo com a natureza, ao traduzirem dados científicos em narrativas sensíveis, visuais e afetivas. A arte, o cinema e os museus funcionam, nesse contexto, como mediadores culturais que ativam empatia, consciência ética e responsabilidade intergeracional, permitindo que a memória de Dian Fossey ultrapasse a biografia individual e se consolide como referência para uma cultura de cuidado, preservação e saúde mental planetária.

Para aprofundar

Livro  

Gorillas in the Mist - Dian Fossey (1983)

Relato autobiográfico e científico que articula etologia, ética do cuidado e crítica às práticas coloniais na conservação.

Filme

Gorillas in the Mist (1988)

Direção: Michael Apted

Narrativa sobre ciência, empatia, isolamento e os custos subjetivos do ativismo ambiental.

Música

Earth Song - Michael Jackson (1995)

Expressão artística do luto ambiental e da urgência ética diante da destruição da vida no planeta.

Link: https://www.youtube.com/watch?v=XAi3VTSdTxU

NEUROPSI DAILY
Uma prática diária de reflexão neurocientífica e biopsicossocial que compreende a esperança como um processo ativo, capaz de sustentar a saúde mental coletiva em contextos de injustiça, exclusão e sofrimento histórico. Ao articular neurobiologia, memória e justiça social, o NEUROPSI DAILY reafirma que dignidade, reconhecimento e futuro possível não são abstrações morais, mas condições fundamentais para o cuidado psíquico individual e coletivo.

Dri Cardoso
Neurocientista e Neuropsicóloga
CEO e Fundadora da NEUROPSI.io
cardoso.adriana@usp.br | dricardoso@neuropsi.io

Referência bibliográfica

CARDOSO, Dri. NEUROPSI DAILY | Janeiro: reflexões biopsicossociais para o dia a dia. São Paulo: NEUROPSI.io. Disponível em: https://www.neuropsi.io. Acesso em: 16 jan. 2026. 


Você encontrará a bibliografia completa no volume de janeiro que será divulgado na biblioteca da NEUROPSI.io a partir de fevereiro de 2026.

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