
NEUROPSI DAILY | #008
08 de janeiro - Dia Nacional do Fotógrafo - Fotografar ou viver o momento?
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08 de janeiro - Dia Nacional do Fotógrafo - Fotografar ou viver o momento?
Curiosidades, pessoas e contextos de referência
O Dia Nacional do Fotógrafo é celebrado no Brasil em 08 de janeiro, data associada à chegada do daguerreótipo ao país no século XIX, marco que inaugura não apenas uma nova técnica de registro visual, mas uma profunda transformação na relação entre sociedade, tempo e memória. A introdução da fotografia no Brasil ocorreu em um contexto de modernização científica e urbana, no qual a imagem passou a ser compreendida como evidência, documento e testemunho, adquirindo rapidamente estatuto de verdade visual.
Desde seus primórdios, a fotografia ocupou um lugar ambíguo entre ciência, arte e poder. Ao mesmo tempo em que prometia fidelidade mecânica ao real, reorganizava radicalmente a forma como as pessoas percebiam o corpo, o espaço, o território e a própria ideia de história. Fotografar passou a significar selecionar, enquadrar e fixar um instante, transformando o efêmero em objeto de observação permanente. Esse gesto inaugurou novas formas de olhar, classificar e narrar o mundo.
No Brasil, a fotografia teve papel central na constituição de arquivos de memória social, científica e política. Foi utilizada em expedições científicas, no mapeamento de cidades, na catalogação de corpos e territórios e na documentação de populações historicamente invisibilizadas - muitas vezes sob uma lógica colonial, hierarquizante e excludente. Ao longo do tempo, contudo, a fotografia também se tornou instrumento de resistência, denúncia e afirmação cultural, sendo apropriada por movimentos sociais, artistas e coletivos como forma de disputar narrativas e produzir visibilidade.
A imagem fotográfica, portanto, não é um espelho neutro da realidade. Ela constrói sentidos, estabelece hierarquias simbólicas e define o que será preservado como memória coletiva. Fotografar é um ato técnico, estético e ético. Cada imagem carrega escolhas explícitas e implícitas sobre o que merece ser visto, lembrado e transmitido às gerações futuras. Nesse sentido, o Dia Nacional do Fotógrafo não celebra apenas a técnica, mas convida à reflexão crítica sobre o papel das imagens na produção de memória, identidade e pertencimento.
Reflexão neurocientífica e biopsicossocial
Do ponto de vista neurocientífico, a fotografia dialoga diretamente com os sistemas de percepção visual, atenção e memória autobiográfica. O cérebro não armazena imagens como arquivos estáticos; ele reconstrói experiências a partir de fragmentos sensoriais, emocionais e narrativos distribuídos em diferentes redes neurais. Nesse contexto, a fotografia atua como um potente disparador desse processo de reconstrução, evocando circuitos associados à memória episódica, ao reconhecimento facial, à empatia e à organização da identidade.
Sob o prisma neurobiológico, a fotografia exerce um papel dual na regulação do bem-estar e na organização da experiência subjetiva. O registro de momentos significativos pode funcionar como um dispositivo de ancoragem emocional e de continuidade identitária. Ao revisitar uma fotografia carregada de afeto, são ativadas redes neurais ligadas à memória episódica, especialmente o hipocampo e o córtex pré-frontal ventromedial, regiões implicadas na integração entre emoção, autobiografia e tomada de decisão. Esse processo favorece a liberação de neurotransmissores como a dopamina e neuromoduladores como a ocitocina, permitindo que aspectos do estado emocional vivido naquele momento sejam parcialmente reexperimentados. Assim, a fotografia opera como uma tecnologia de suporte à memória autobiográfica, fortalecendo o vínculo da pessoa com sua própria história e com experiências de pertencimento.
Entretanto, a era da hipervisibilidade digital introduz variáveis críticas a esse funcionamento. Quando o cérebro passa a direcionar recursos atencionais excessivos para a curadoria da imagem destinada ao olhar do outro, emerge o risco de empobrecimento da experiência vivida no aqui e agora. A atenção se desloca da vivência sensorial direta para a antecipação da performance, do registro e da validação externa. Nesse cenário, instala-se a possibilidade de construção de uma “história ilusória”, na qual a pessoa passa a se regular mais pela narrativa editada de si mesma do que pela experiência corporal, emocional e relacional concreta.
Esse descompasso entre o “eu performado” e o “eu vivido” constitui um terreno fértil para estados de ansiedade, sensação de vazio e fragmentação identitária, especialmente em contextos de comparação social contínua. Do ponto de vista biopsicossocial, a fotografia deixa de operar como recurso de memória e passa a funcionar como substituto da presença. O desafio contemporâneo não é abandonar a imagem, mas recolocá-la em seu lugar ético e funcional: como instrumento de sustentação da memória e da narrativa pessoal, e não como mediadora exclusiva da experiência de existir.
Por fim, é fundamental reconhecer que toda imagem é também uma escolha. O que se fotografa, o que permanece fora do enquadramento e o contexto em que a imagem circula influenciam diretamente os processos de interpretação e de memória coletiva. Em sociedades marcadas por desigualdades estruturais, a fotografia pode tanto humanizar quanto estigmatizar, tanto preservar quanto apagar histórias. Olhar uma fotografia, portanto, exige uma postura crítica: não apenas ver, mas interrogar quem produziu a imagem, a serviço de que narrativa e com quais impactos subjetivos, sociais e políticos.
Arte, memória e reconstrução coletiva
A fotografia ocupa um lugar central nos dispositivos culturais que estruturam o olhar e sustentam a memória coletiva. No Brasil, instituições como o Instituto Moreira Salles (IMS), com sedes em São Paulo e no Rio de Janeiro, desempenham papel fundamental na preservação, curadoria e difusão da fotografia como patrimônio histórico e linguagem artística. Seu acervo e suas exposições permitem compreender a imagem fotográfica como ferramenta de construção da identidade brasileira, articulando documentação social, experimentação estética e reflexão crítica sobre o país e suas desigualdades.
De forma complementar, o Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, oferece um espaço privilegiado para investigar a evolução tecnológica e cultural das imagens, do analógico ao digital. Ao integrar fotografia, audiovisual e som, o MIS amplia a compreensão do olhar como prática histórica, social e sensorial, permitindo que o público reconheça a fotografia não apenas como registro, mas como produção ativa de memória, narrativa e pertencimento.
Para aprofundar
Livro
A Câmara Clara - Roland Barthes (1980)
Obra seminal e sensível sobre a fotografia, na qual Barthes investiga a imagem como experiência subjetiva atravessada por afeto, perda e finitude. Ao refletir sobre o punctum e o studium, o autor evidencia como a fotografia toca dimensões profundas da memória e da identidade, indo muito além do registro técnico.
Documentário
O Sal da Terra - Direção de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado
O documentário acompanha a trajetória do fotógrafo Sebastião Salgado, revelando a fotografia como prática ética, política e humanizadora. A obra evidencia o compromisso da imagem com a denúncia, a dignidade humana e a reconstrução da memória coletiva diante de contextos de violência, desigualdade e apagamento histórico.
Link: https://www.youtube.com/watch?v=jgd3ZDtx8lg
Música
Photograph - Ed Sheeran (2014)
A canção aborda a fotografia como um dispositivo de preservação afetiva e de ancoragem emocional diante do tempo, da distância e das perdas. Ao afirmar que “guardamos esse amor em uma fotografia”, a letra explicita a imagem como suporte simbólico para atravessar momentos difíceis, funcionando como um recurso de continuidade da memória e do vínculo. Em diálogo direto com a reflexão deste artigo, a música evidencia a fotografia não como simples registro visual, mas como tecnologia emocional que sustenta a narrativa pessoal, permitindo que experiências significativas sejam revisitadas, ressignificadas e integradas à história de quem as viveu.
Link: https://www.youtube.com/watch?v=nSDgHBxUbVQ&list=RDnSDgHBxUbVQ&start_radio=1
NEUROPSI DAILY
Uma prática diária de reflexão neurocientífica e biopsicossocial que reconhece a fotografia como um dispositivo central na constituição da memória, da identidade e do pertencimento. Ao atravessar ciência, arte e política, as imagens revelam, questionam e reconstroem narrativas individuais e coletivas, convocando à responsabilidade ética sobre o que se escolhe registrar, lembrar e transmitir como memória para o futuro.
Dri Cardoso
Neurocientista e Neuropsicóloga
CEO e Fundadora da NEUROPSI.io
cardoso.adriana@usp.br | dricardoso@neuropsi.io
Referência bibliográfica
CARDOSO, Dri. NEUROPSI DAILY | Janeiro: reflexões biopsicossociais para o dia a dia. São Paulo: NEUROPSI.io. Disponível em: https://www.neuropsi.io. Acesso em: 8 jan. 2026.
Você encontrará a bibliografia completa no volume de janeiro que será divulgado na biblioteca da NEUROPSI.io a partir de fevereiro de 2026.


