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02 de janeiro - Dia Nacional do Sanitarista

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Dri Cardoso

1/2/20266 min read

02 de janeiro - Dia Nacional do Sanitarista

Curiosidades, pessoas e contextos de referência

O Dia do Sanitarista, celebrado em 2 de janeiro no Brasil, reconhece profissionais que atuam na base estrutural da saúde pública. O sanitarismo é um campo voltado à prevenção, à vigilância em saúde, ao saneamento, à análise de riscos e à formulação de políticas públicas, operando antes que o adoecimento se manifeste. Trata-se de um trabalho essencialmente coletivo, frequentemente invisível, mas decisivo para a redução de desigualdades, a contenção de epidemias e a sustentação da vida social.

A história do sanitarismo se desenvolve junto com a própria compreensão social das epidemias. Quando comunidades percebem que adoecimentos em massa não são “fatalidades individuais”, mas fenômenos produzidos por água contaminada, superlotação, lixo acumulado, vetores e desigualdade, nasce a necessidade de um tipo de ação pública que antecipa o desastre. Por isso, a saúde pública moderna não é apenas tratamento: é infraestrutura, planejamento e decisão política.

No Brasil, essa lógica aparece de forma muito concreta nas primeiras grandes campanhas sanitárias do século XX. Oswaldo Cruz (1872-1917), nascido em São Luiz do Paraitinga (SP), médico e sanitarista, com atuação em bacteriologia e medicina experimental, liderou ações de combate à febre amarela, varíola e peste bubônica, associando intervenção urbana, vigilância e ciência aplicada. Carlos Chagas (1879-1934), nascido em Oliveira (MG), médico sanitarista e pesquisador em medicina tropical, mostrou de modo paradigmático como doença, território, pobreza e Estado formam um mesmo problema ao descrever a doença de Chagas integrando agente, vetor, clínica e contexto social. Décadas depois, Sérgio Arouca (1941-2003), nascido em Ribeirão Preto (SP), médico sanitarista e uma das principais lideranças da Reforma Sanitária Brasileira, consolidou a crítica de que saúde não pode ser mercadoria nem privilégio, mas um direito de cidadania. Sua atuação foi central na formulação do princípio da saúde como direito universal e dever do Estado, que se materializou na criação do Sistema Único de Saúde (SUS), estruturado sobre os eixos da universalidade, integralidade, equidade e participação social, como política pública destinada à proteção institucional da vida e à redução das desigualdades em saúde.

A pandemia da COVID-19 tornou visível algo que, em geral, só percebemos quando falta: o quanto a vida cotidiana depende de estruturas coletivas de cuidado. Vigilância epidemiológica, comunicação clara, vacinação, ambientes ventilados e confiança nas instituições deixaram de ser temas distantes e passaram a atravessar decisões simples do dia a dia como trabalhar, circular, encontrar pessoas e cuidar de quem amamos. A vida é sustentada por processos sanitários contínuos que, quando funcionam bem, permitem que a vida siga com menos medo, mais previsibilidade e maior possibilidade de cuidado mútuo.

Reflexão neurocientífica e biopsicossocial

Do ponto de vista neurocientífico, crises sanitárias prolongadas favorecem ativação crônica dos sistemas de estresse, o que compromete a regulação emocional, a flexibilidade cognitiva e o equilíbrio fisiológico ao longo do tempo. Incerteza, risco invisível de contágio, sobrecarga informacional, perda de previsibilidade e ameaça à integridade física sustentam estados de alerta que tendem a reduzir flexibilidade cognitiva, piorar sono, ampliar irritabilidade, comprometer memória de trabalho e aumentar desgaste emocional.

Em termos biopsicossociais, o cérebro tenta economizar energia e buscar controle; quando não encontra estabilidade, pode entrar em ciclos de hiperatenção, exaustão e desânimo, variando conforme história de vida, suporte social, condições econômicas e exposição real ao risco.

É nesse ponto que o sanitarismo pode ser compreendido como uma forma de proteção coletiva do funcionamento humano, ainda que não seja nomeado dessa maneira. Medidas como saneamento básico, vacinação, vigilância epidemiológica e atenção primária reduzem a exposição contínua a riscos e incertezas no cotidiano. Quando essas estruturas estão presentes, as pessoas conseguem planejar a vida, estudar, trabalhar, cuidar dos vínculos e descansar com maior segurança. Esse efeito não é apenas social, mas também neurofisiológico, pois diminui a ativação crônica do estresse e favorece a regulação emocional. Quando essas estruturas falham, o cotidiano se torna instável e o sofrimento psíquico tende a ser interpretado de forma equivocada como falta de “resiliência individual”, ocultando suas causas estruturais.

O ponto crítico, portanto, é o seguinte: saúde mental não é uma camada “a mais” que vem depois da saúde pública. Ela é produzida também por políticas públicas ou pela ausência delas. A pandemia ensinou, com a um alto custo, que comunicação de risco mal conduzida, desinformação e negligência institucional podem amplificar medo, polarização e sofrimento físico e psíquico. E ensinou algo ainda mais duro: desigualdade sanitária é desigualdade de futuro. Quem vive em território com pouca proteção coletiva não sofre apenas mais infecção; sofre mais desgaste, mais luto, mais instabilidade e menos possibilidade de reconstrução.

Em janeiro, quando muitas campanhas falam de saúde mental como “atitude” ou “hábito”, o Dia do Sanitarista devolve o eixo da conversa para o lugar certo: o cuidado também é estrutura. É prevenção. É ciência com responsabilidade pública. É Estado funcionando para que a vida cotidiana não seja uma sequência de emergências.

Arte, memória e reconstrução coletiva

A memória das epidemias não é só um arquivo do passado: é um dispositivo de preparação social. Museus e centros culturais que tratam da história da saúde pública ajudam a produzir uma alfabetização coletiva sobre risco, ciência, desigualdade e cuidado exatamente os temas que voltam à cena toda vez que um país enfrenta uma crise sanitária.

No Rio de Janeiro, o Museu da Vida Fiocruz, localizado no campus da Fiocruz em Manguinhos, articula ciência, saúde e cultura em linguagem pública, com programação presencial e virtual, e com iniciativas de acervo e divulgação científica que se intensificaram durante a pandemia. Ao transformar ciência em experiência cultural, esse tipo de instituição atua também na redução do medo e da desinformação, dois fatores que pesam diretamente sobre saúde mental em contextos de crise.

Em São Paulo, o Museu de Saúde Pública Emílio Ribas (MUSPER), no bairro do Bom Retiro, funciona no edifício histórico do antigo Desinfectório Central (1893), ligado às estratégias sanitárias do século XIX. Esse espaço materializa uma ideia central do sanitarismo: o cuidado coletivo tem história, tem técnica, tem política e tem conflito social. Visitar (ou ao menos conhecer) esse tipo de lugar produz uma espécie de “consciência histórica do cuidado”: uma lembrança concreta de que epidemias não se resolvem por opinião, mas por organização pública.

No plano internacional, a Wellcome Collection, em Londres, é um museu e biblioteca que explora as relações entre medicina, cultura e experiência humana de saúde, oferecendo exposições e acervos que ajudam a pensar como sociedades interpretam doenças, corpo, risco e desigualdade. Em períodos pós-crise, esse tipo de instituição funciona como espaço de reconstrução simbólica: a sociedade transforma trauma em narrativa, e narrativa em aprendizado. 

No Museu da Pessoa, o acervo de histórias de vida reúne milhares de relatos autobiográficos gravados ao longo de décadas, incluindo um conjunto significativo de narrativas produzidas durante a pandemia de COVID-19. Esses registros documentam experiências de isolamento, recolhimento, medo, reorganização do cotidiano e reflexão interna, permitindo compreender como processos introspectivos individuais foram transformados em memória coletiva e patrimônio imaterial. 

Esses espaços funcionam como dispositivos de legitimação simbólica da vida interior, mostrando que silêncio, reflexão e observação não são ausência de participação social, mas formas fundamentais de elaboração psíquica e reconstrução coletiva do sentido.

Para aprofundar

Filme

Contágio (2011)
Direção: Steven Soderbergh

É um filme que permite compreender, de forma dramatizada porém tecnicamente reconhecível, como surtos se espalham, como decisões públicas são tomadas (ou sabotadas), e como comunicação, confiança institucional e desigualdade modulam respostas sociais. Ele serve como uma lente cultural para enxergar o que o sanitarismo tenta fazer antes do colapso: reduzir risco, proteger coletivos e criar coordenação em meio à incerteza.

Vídeo/Música

Lean on Me - ArtistsCAN (2020)

Trata-se de uma iniciativa canadense em que artistas se reuniram durante a pandemia para lançar uma versão colaborativa da música como campanha solidária, associada à arrecadação de recursos para ações de enfrentamento da COVID-19 no Canadá. O ponto relevante, aqui, não é “a música como motivação”, mas a música como dispositivo social de coesão: em crise sanitária, vínculos simbólicos como arte, campanhas e ações coletivas podem reduzir isolamento, favorecer sentido compartilhado e reforçar a ideia de responsabilidade pública sem substituir ciência, mas ajudando a sustentar o tecido social enquanto a resposta sanitária opera.

Link: Lean on Me - ArtistsCAN (Official Video)

NEUROPSI DAILY
Uma prática diária de reflexão neurocientífica e biopsicossocial para compreender como estruturas coletivas, como o sanitarismo, sustentam a saúde mental, os vínculos e a vida em comum.

Dri Cardoso
Neurocientista e Neuropsicóloga
CEO e Fundadora da NEUROPSI.io
cardoso.adriana@usp.br | dricardoso@neuropsi.io

Referência bibliográfica

CARDOSO, Dri. NEUROPSI DAILY | Janeiro: reflexões biopsicossociais para o dia a dia. São Paulo: NEUROPSI.io. Disponível em: https://www.neuropsi.io. Acesso em: 2 jan. 2026. 


Você encontrará a bibliografia completa no volume de janeiro que será divulgado na biblioteca da NEUROPSI.io a partir de fevereiro de 2026.

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